Talvez uma das experiências mais difíceis do amor seja descobrir que amar alguém não nos dá o poder de conservá-lo como o conhecemos.

Gostaríamos que algumas pessoas, alguns momentos e até determinadas versões de nós mesmos permanecessem. Olhamos uma fotografia antiga e, por alguns segundos, reencontramos quem éramos. Observamos nossos filhos crescendo e sentimos orgulho, mas também certa saudade da criança que já não existe. Depois de muitos anos de casamento, podemos olhar para quem está ao nosso lado e perceber que aquela pessoa mudou. E talvez a descoberta mais desconcertante seja esta: nós também mudamos.

O tempo nos oferece experiências, encontros e amadurecimento, mas cobra algo em troca: nada permanece exatamente igual.

Há milhares de anos, os gregos contaram uma história extraordinária sobre esse conflito. É o mito de Eos e Títono. Por trás de deuses, imortalidade e transformações fantásticas, existe uma história profundamente humana sobre amor, envelhecimento, medo da perda e dificuldade de aceitar mudanças.

Quando aproximamos esse mito da Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung, surge uma pergunta que talvez diga respeito a todos nós:

Quando queremos que algo dure para sempre, estamos tentando conservar o amor, ou impedir que ele se transforme?

O mito de Eos e Títono: quando o amor tenta vencer o tempo

Eos era a deusa grega da aurora. Todas as manhãs, sua chegada anunciava que a noite havia terminado e um novo dia estava começando. Títono, ao contrário, era mortal. Pertencia à casa real de Troia e, segundo o Hino Homérico a Afrodite, sua beleza despertou o amor de Eos. A deusa o levou consigo para os confins da Terra e desejou permanecer ao lado dele.

Mas havia um problema inevitável.

Eos era divina.

Títono morreria.

Apaixonada, ela dirigiu-se a Zeus e pediu que Títono se tornasse imortal. Zeus atendeu ao pedido. Eos, porém, esqueceu-se de pedir outra coisa: que Títono permanecesse jovem.

Essa parte da narrativa aparece claramente no Hino Homérico a Afrodite, nos versos 218-238. Enquanto Títono desfrutava da juventude, viveu com Eos junto às correntes do Oceano. Até que apareceram os primeiros cabelos brancos. Depois vieram outros sinais da idade. Seu corpo perdeu progressivamente a força, até que já não conseguia movimentar seus membros.

A narrativa torna-se então especialmente dolorosa. Eos começa a afastar-se do leito do homem que amava. Continua cuidando dele, oferecendo alimento, ambrosia e roupas, mas já não consegue relacionar-se com ele da mesma maneira. Quando a velhice o domina completamente, ela o coloca em um aposento e fecha as portas.

Títono não pode morrer. Mas também já não pode viver como antes.

Resta-lhe, na antiga narrativa, uma voz que continua indefinidamente. Há algo quase cruel nessa ironia mitológica: Eos conseguiu impedir que Títono morresse, mas não conseguiu impedir que ele mudasse. E talvez seja exatamente por isso que uma história tão antiga ainda tenha algo a nos dizer.

Eos e o desejo de conservar aquilo que amamos

O gesto de Eos nasce do amor. Ela não deseja aprisionar Títono. Não deseja fazê-lo sofrer. Pelo contrário: quer evitar a experiência de perdê-lo. É justamente isso que torna o mito psicologicamente tão interessante, porque também fazemos isso, em proporções muito mais cotidianas.

Quando amamos alguém, criamos memórias, expectativas e imagens dessa pessoa. Guardamos a mulher ou o homem por quem nos apaixonamos, a criança que carregamos no colo, os pais que pareciam fortes, o amigo da juventude, o corpo que tivemos um dia. O problema começa quando, silenciosamente, passamos a exigir que a realidade continue correspondendo a essas imagens.

Quando amamos uma pessoa e quando amamos a imagem que construímos dela?

Na Psicologia Analítica, Jung dedicou atenção importante ao fenômeno da projeção. Conteúdos que pertencem à nossa própria vida psíquica podem ser experimentados como se pertencessem exclusivamente à pessoa que está diante de nós. Jung relaciona esse fenômeno à dinâmica entre consciência e inconsciente e ao processo pelo qual o indivíduo começa a diferenciar aquilo que pertence ao outro daquilo que sua própria psique deposita nele.

Isso oferece uma chave interessante para pensarmos Eos. Ela ama Títono, mas podemos perguntar: quanto desse amor também está ligado à imagem do jovem Títono que ela deseja conservar?

Então os cabelos ficam brancos.

O corpo muda.

Aquele que está diante dela continua sendo Títono e, ao mesmo tempo, já não é exatamente o Títono que ela conheceu.

Esse conflito aparece diariamente nos relacionamentos. O outro tem o direito de tornar-se diferente daquele por quem nos apaixonamos? E nós, conseguimos aceitar quem estamos nos tornando?

Relacionamentos também precisam envelhecer

Costumamos falar sobre pessoas envelhecendo, mas raramente pensamos que as relações também envelhecem. E isso não precisa significar deterioração.

Um casamento de vinte anos não deveria ser idêntico a um namoro de seis meses. A relação de uma mãe com um filho de 35 anos não pode ser a mesma que existia quando ele tinha cinco. Amizades antigas precisam acomodar novas famílias, distâncias, prioridades e experiências.

Uma relação viva precisa encontrar novas formas. O sofrimento pode aparecer quando tentamos obrigar uma relação presente a reproduzir permanentemente aquilo que ela foi no passado. Às vezes alguém diz:

“Ele não é mais o homem com quem me casei.”

“Ela mudou muito.”

Talvez a seguinte pergunta possa ser mais importante: seria possível atravessar vinte anos sem mudar? A questão deixa então de ser simplesmente “por que você mudou?” e pode tornar-se: “quem você se tornou?” e “consigo me relacionar com essa pessoa que existe agora?”.

Permanecer junto não significa permanecer igual.

Jung e o envelhecimento: quando a vida começa a pedir outras respostas

A questão do envelhecimento na psicologia de Jung é especialmente interessante porque ele atribuiu grande importância às diferentes etapas da vida. Em As etapas da vida humana, presente no volume 8/2 de suas Obras Completas, Jung aborda as mudanças das tarefas psicológicas ao longo da existência. A coletânea também reúne A alma e a morte, mostrando como desenvolvimento, envelhecimento e finitude ocupam lugar importante em sua reflexão psicológica.

Na primeira metade da vida, grande parte de nossa energia costuma estar voltada para fora. Estudar. Trabalhar. Encontrar uma profissão. Construir independência. Estabelecer relacionamentos. Constituir família. Encontrar um lugar no mundo. Mas chega um momento em que algumas dessas respostas deixam de ser suficientes.

Os filhos crescem.

Os pais envelhecem.

O corpo se transforma.

A carreira pode deixar de ocupar o mesmo lugar.

Algumas possibilidades diminuem; outras aparecem.

E uma pergunta que durante muitos anos pôde permanecer silenciosa começa a surgir: quem sou eu quando aquilo que durante tanto tempo me definiu começa a mudar?

O problema talvez não seja envelhecer, mas querer continuar sendo quem já fomos.

É aqui que Títono ganha uma força simbólica extraordinária. Ele continua existindo, mas não consegue escapar da transformação provocada pelo tempo. Nossa situação evidentemente é outra. Mas a imagem mitológica permite pensar na pessoa que tenta atravessar todas as etapas da existência utilizando os mesmos critérios pelos quais viveu a juventude. Isso pode aparecer na relação com o corpo, com a sexualidade, com o trabalho, com os filhos ou com a própria aparência.

Aceitar o envelhecimento não significa desistir de si. Não significa abandonar projetos, cuidados, sexualidade, vaidade ou desejo. Significa talvez algo mais difícil: permitir que essas experiências adquiram novos significados.

Individuação: adaptar-se não é simplesmente conformar-se

Um conceito central da Psicologia Analítica é a individuação. De maneira necessariamente resumida, trata-se de um processo de diferenciação e desenvolvimento da personalidade no qual ampliamos a consciência sobre aquilo que somos, incluindo aspectos anteriormente inconscientes. Jung descreve a individuação como um processo que ultrapassa simplesmente a adaptação às expectativas coletivas e envolve uma relação progressivamente mais consciente com a totalidade da experiência psíquica.

A própria tradição da Psicologia Analítica continua definindo a individuação como uma ampliação da consciência dos fatores que influenciam nossa relação com as experiências psicológicas, interpessoais e culturais. Por isso, adaptar-se às mudanças da vida não significa conformar-se passivamente com elas.

Adaptação pode envolver luto.

Pode envolver resistência.

Pode envolver tristeza pelo que não voltará.

Mas também pode significar descobrir outras possibilidades de existência.

Uma pessoa que se aposenta não precisa simplesmente “aceitar que ficou velha”. Talvez precise descobrir quem é quando sua profissão deixa de ocupar o centro de sua identidade. Uma mãe diante da saída dos filhos de casa não precisa fingir que não sente a ausência: pode precisar elaborar quem ela é para além da função materna cotidiana. Uma pessoa que olha para o próprio corpo depois de décadas não precisa negar as mudanças; talvez precise construir uma relação diferente com esse corpo.

Isso é muito diferente de resignação. É transformação.

As pequenas mortes que atravessamos durante a vida

Há algo ainda mais radical no mito de Títono: ele não pode morrer. Podemos pensar a morte, aqui, também simbolicamente. Ao longo da vida, muitas coisas precisam terminar.

A infância termina.

Algumas amizades terminam.

Relacionamentos podem terminar.

Os filhos deixam de ser crianças.

Determinadas funções profissionais terminam.

Um corpo que tivemos não retornará.

Algumas certezas desaparecem.

Até certas versões de nós mesmos precisam, de algum modo, morrer para que outras possam surgir. A tradição junguiana relaciona individuação e transformação, inclusive por meio de imagens simbólicas de renovação e renascimento. Talvez amadurecer envolva aprender a realizar esses pequenos lutos sem acreditar que cada término representa o fim de nossa possibilidade de viver.

Eos: a deusa que anuncia o novo, mas deseja conservar o antigo

Existe, finalmente, um detalhe que torna esse mito ainda mais bonito: Eos é a deusa da aurora. Sua existência anuncia, todos os dias, que algo terminou e algo novo começou. No entanto, quando ama Títono, deseja exatamente o contrário: quer que algo permaneça para sempre. Essa contradição talvez seja profundamente humana.

Queremos que nossos filhos cresçam e sentimos saudade de quando eram pequenos.

Queremos viver muitos anos com alguém, mas podemos ter dificuldade em aceitar as marcas que esses mesmos anos deixam.

Queremos amadurecer e sentimos falta de quem fomos.

Queremos o novo, mas sofremos para abandonar o antigo.

Talvez saúde psicológica não signifique eliminar essa contradição. Talvez signifique conseguir habitá-la.

Permanecer não significa permanecer igual

Amar alguém ao longo do tempo talvez envolva encontrá-lo muitas vezes. Conhecer a pessoa por quem nos apaixonamos e, anos depois, ter disposição para conhecer também aquela em que ela se transformou. O mesmo vale para nós. Podemos olhar para aquilo que fomos com carinho sem exigir que continuemos sendo aquela pessoa.

Talvez uma das tarefas mais difíceis do envelhecimento seja justamente descobrir que adaptar-se não significa perder a própria identidade; significa permitir que ela continue viva o suficiente para se transformar. Títono recebeu a eternidade. Eos tentou conservar o amor. E o mito deixou uma pergunta que atravessou milênios:

O que estamos tentando conservar quando temos tanto medo de que alguma coisa mude?

Talvez não precisemos conservar intacto aquilo que amamos. Talvez precisemos aprender algo mais difícil: continuar amando aquilo que inevitavelmente se transforma.

Perguntas frequentes

É normal ter medo de envelhecer?

O medo de envelhecer pode envolver questões diferentes: mudanças corporais, perda de autonomia, consciência da finitude, transformações profissionais e receio de perder pessoas ou lugares sociais importantes. A questão psicológica não está simplesmente em sentir esse medo, mas em compreender o significado particular que envelhecer adquiriu para cada pessoa.

Por que é tão difícil aceitar que as pessoas mudam?

Porque não nos relacionamos apenas com aquilo que a pessoa é no presente. Construímos histórias, expectativas, lembranças e imagens sobre ela. Quando o outro muda, algumas dessas representações também precisam ser revistas. Em determinados relacionamentos, essa transformação pode ser vivida como perda.

O que Jung dizia sobre envelhecimento?

Jung considerava que as diferentes etapas da vida apresentam tarefas psicológicas distintas e criticava, em essência, a tentativa de enfrentar a segunda metade da existência simplesmente com os mesmos pressupostos da juventude. Seus textos As etapas da vida humana e A alma e a morte são referências importantes para esse tema.

O que é individuação para Jung?

Individuação é um conceito central da Psicologia Analítica relacionado ao desenvolvimento e à diferenciação da personalidade, incluindo uma relação mais consciente entre ego, inconsciente e a totalidade psíquica. Não significa individualismo ou simplesmente “fazer o que se quer”.

A psicoterapia pode ajudar na dificuldade de aceitar mudanças?

A psicoterapia pode oferecer um espaço para compreender como mudanças, perdas, envelhecimento e transformações relacionais são experimentados por aquela pessoa em particular. Não se trata de ensinar alguém simplesmente a “aceitar”, mas de favorecer elaboração, compreensão e construção de novas possibilidades diante da própria experiência.

Quando mudar começa a doer

Algumas mudanças são assimiladas naturalmente. Outras nos atravessam de maneira mais profunda. O envelhecimento, uma separação, mudanças no casamento, a saída dos filhos de casa, transformações corporais, perdas ou a sensação de não reconhecer mais a própria vida podem despertar questões que merecem ser escutadas com tempo e cuidado.

No Espaço Sagesse, o atendimento psicológico oferece um espaço de escuta e reflexão sobre essas e outras experiências, respeitando a singularidade, a história e o tempo de cada pessoa.

Buscar psicoterapia não significa que exista uma resposta pronta para aquilo que estamos vivendo. Pode significar justamente criar um espaço para formular melhor as perguntas.

Referências e fontes para aprofundamento

HINO HOMÉRICO A AFRODITE. In: The Homeric Hymns and Homerica. Tradução de Hugh G. Evelyn-White. Cambridge, MA: Harvard University Press; London: William Heinemann, 1914. vv. 218-246. Texto disponível no Perseus Digital Library, Tufts University.

JUNG, C. G. The Collected Works of C. G. Jung. Volume 7: Two Essays on Analytical Psychology. 2. ed. Princeton: Princeton University Press, 1966.

JUNG, C. G. The Collected Works of C. G. Jung. Volume 8: The Structure and Dynamics of the Psyche. 2. ed. Princeton: Princeton University Press, 1969. Inclui As etapas da vida humana e A alma e a morte.

JUNG, C. G. The Collected Works of C. G. Jung. Volume 9, Part I: The Archetypes and the Collective Unconscious. 2. ed. Princeton: Princeton University Press, 1968.